Futuro lançamento

Num momento em que a sociedade se vê diante de projetos políticos polarizantes e as atenções se voltam para o planejamento dos próximos anos, os trabalhos de Heitor Ramalho reunidos em Futuro Lançamento exploram os mecanismos que estruturam a paisagem e a distribuição do espaço público. Aponta-se a necessidade de pensar coletivamente no direito à cidade, à moradia e às formas de construção de espaços comuns para a superação dos impasses contemporâneos.

As obras em exposição expandem-se pelas linguagens da fotografia, da instalação, do objeto e do site-specific e compartilham, como ponto de partida, o bairro em que está instalada a mostra — e que começa a dar sinais de iminente gentrificação. Entre elas está a instalação Montantes (2021-22), composta de aproximadamente 3 toneladas de pedras britadas e reunidas em montes, numa alusão tanto à paisagem minerada quanto à acumulação de riqueza. Outro destaque é Fênix (2022), que traz, no portão do espaço expositivo, elementos da pintura na fachada de uma loja de ferramentas para escavação observada pelo artista durante uma caminhada pela vizinhança. A imagem foi reproduzida invertida, formando um sorriso sinistro, que recebe o público na mostra.

Com curadoria de Lucas Goulart, a exposição ocupa a fachada, o espaço interno e o externo do galpão, numa organização em que as obras agregam sentido umas às outras, sucessivamente — apresentando os lados “de dentro” e “de fora” no processo de construção das cidades e das subjetividades. “Essa circularidade, de certa forma, é análoga aos procedimentos de reprodução, extração e transposição nos próprios trabalhos de Heitor e, por sua vez, sublinham diferentes estágios dessa cadeia de produção das cidades, do desejo e da riqueza”, comenta Goulart.

A interlocução entre o artista e o curador, ambos de origem no ABC paulista, teve início há um ano, a partir do interesse mútuo pelo espaço urbano e pelas estratégias de apropriação e intervenção pública como operações artísticas.

O bem-humorado título Futuro Lançamento apropria-se do jargão de anúncios de construtoras e remete às obras da exposição; ao permanente estado de projetorenovação vivido em São Paulo; às próprias expectativas com o “lançamento” do jovem artista; e ao processo de gentrificação em curso na Barra Funda, que ameaça a existência do próprio espaço de arte no bairro e é, simultaneamente, uma consequência de sua presença ali.

SERVIÇO

Futuro Lançamento

Exposição de Heitor Ramalho com curadoria de Lucas Goulart

De 12 de novembro a 11 de dezembro de 2022

Rua Cruzeiro, 802 – Barra Funda