Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro

No dia 24 de janeiro, inauguramos a exposição Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro, segunda individual da artista Luiza Sigulem, com curadoria de Juliana Caffé.
“Ao longo do meu processo, a falta de acessibilidade se manifestou no tempo necessário para lidar com pequenos e grandes obstáculos e na atenção exigida por ajustes mínimos que se acumularam de forma quase imperceptível,” declara a artista. “Essa experiência deslocou a ideia de eficiência e aproximou minha produção de uma noção de tempo expandido, no qual o ritmo do corpo não coincide com a expectativa normativa da reprodução capitalista. É nesse descompasso que o meu trabalho se constrói.”
A ideia de percorrer a menor distância entre dois pontos costuma pressupor continuidade, regularidade e previsibilidade. Trata-se de uma operação que naturaliza certos corpos e ritmos, tomando o percurso como algo dado. Em Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro, Luiza Sigulem tensiona essa lógica ao tratar o caminho não como linha ideal, mas como construção instável, atravessada por ajustes, pausas e negociações. A exposição propõe um deslocamento do olhar: da eficiência do trajeto às condições que tornam possível, ou impossível, atravessá-lo.
Ao articular, pela primeira vez, vídeo-performances, intervenções e esculturas, a mostra reúne um conjunto inédito de trabalhos de Sigulem. Em seu conjunto, as obras mobilizam a instabilidade como condição material que reorganiza a relação entre corpo e arquitetura e produz um tempo que não coincide com a lógica da eficiência. Nesse descompasso, o percurso se afirma como operação de ajuste, desdobrada também na relação entre os trabalhos e o público.
Ao se confrontar com as condições materiais e arquitetônicas dos espaços expositivos, o projeto encontrou um dado incontornável do contexto paulistano: a dificuldade, de ordem estrutural, de encontrar lugares capazes de acolher essa investigação de forma coerente com suas questões. Em vez de neutralizar esse dado, a exposição o assume como campo de investigação crítica.
A escolha do Ateliê397 como sede da mostra responde a esse contexto. Espaço independente, oferece abertura conceitual e um campo real de negociação para a construção do projeto. Situado na Travessa Dona Paula, em uma área marcada por importantes equipamentos culturais igualmente limitados em termos de acessibilidade, a instituição e o seu entorno passam a operar como elementos ativos do projeto.
Ao invés de adaptar o espaço a um modelo normativo de circulação, a exposição propõe uma inversão deliberada: é o público que se vê convidado a recalibrar sua presença. Rebaixamentos, deslocamentos e ajustes de altura — tanto em Linha de corte quanto em decisões expográficas — reorganizam o percurso, tornando a circulação consciente e instaurando um regime de atenção no qual caminhar, entrar e parar deixam de ser gestos naturalizados.
Essa lógica se estende a outro conjunto de trabalhos. Nos vídeo-performances e fotografias, Sigulem investiga gestos de deslocamento e esforço, mobilizando repertórios ligados à caminhada, à intervenção e à repetição. Se em produções anteriores a artista convocava o outro a ajustar-se a determinadas escalas, aqui ela coloca o próprio corpo como campo de experimentação, afirmando a instabilidade não como falha, mas como procedimento. Assim, o deslocamento deixa de ser meio e passa a constituir o núcleo da experiência.
Se por um lado algumas obras exigem do público um trabalho atento de ajuste e presença, Dispositivo de acessibilidade e permanência atua no sentido inverso. A obra assume a acessibilidade como método, reorganizando o espaço, o tempo e a recepção a partir das condições concretas de permanência de corpos historicamente excluídos do circuito da arte. Ao articular intervenções no mobiliário e na circulação entre instituições da vila, o trabalho reformula a noção de acesso como adaptação pontual e a afirma como prática contínua, configurando uma estrutura provisória de cuidado. Mais do que responder a uma demanda normativa, o trabalho torna visíveis os limites institucionais e indica que a acessibilidade não é exceção, mas prática possível, construída com meios simples e ajustes precisos.
Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro constrói um campo de atenção à arquitetura, aos tempos do corpo e aos dispositivos que regulam o acesso e a permanência. Ao assumir a infraestrutura como coautora da experiência, Sigulem sugere que toda trajetória é atravessada por desvios, pausas e ajustes contínuos, e que a menor distância entre dois pontos raramente coincide com a linha mais curta ou mais eficiente.
A exposição Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro integra o projeto Jeito de Corpo, contemplado no Edital Fomento CultSP PNAB Nº 25/2024, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, Estado de São Paulo. Além disso, a exposição possui apoio de audiodescrição e vídeos, disponíveis a partir da leitura desse QR Code:

Local: Ateliê397
Travessa Dona Paula, 119A – Higienópolis, São Paulo.
De 24/01 a 28/02.
Visitação de quarta a sábado, das 14h às 18h.
SERVIÇO
Exposição: Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro
Artista: Luiza Sigulem
Curadoria: Juliana Caffé
Expografia: messina | rivas
ID Visual: Rodrigo Araujo
Produção: Mônica Maia