Permeabilidade Estruturante – processo nº1 / Isabella Lescure

Estas são imagens disparadoras, capturadas por mim em diferentes momentos e como frutos do acaso. No dia antes começar a quarentena – peixes, camarões e polvos dentro de uma vitrine de peixaria formavam uma composição que considerei interessante e ambígua pois ao mesmo tempo que era estético tratava-se de seres, carnes mortas e cruas em um display para serem escolhidas. A segunda situação ocorreu ao voltar para a minha casa após um longo tempo distante e encontrar uma infinidade de jambos caídos e em diferentes etapas do seu processo de decomposição. O cheiro terrível e a materialidade asquerosa cooexistiam com uma incrível paleta de cores; a composição geral superava a situação de podridão e amenizava o desconforto ao ensacar as frutas mortas. Por último, encontrei uma folha que resistia à ação do tempo, com sua estrutura aparentemente frágil ela permanece existindo com uma riqueza de detalhes e desenhos.

O armazenamento dessas imagens combinado às minhas considerações a respeito da experiência sob qual o mundo encontra-se inserido me fizeram traçar paralelos entre as situações observadas. Acredito que a vulnerabilidade seja característica intrínseca à existência humana, não entrando no escopo social desta questão que evidencia diferentes níveis de vulnerabilidade dentro de uma sociedade desigual, porém encarando pessoas no geral como seres sensíveis e permeáveis. Entendo também que apesar de perdas e cicatrizes, as pessoas seguirão resistindo e se adaptando às novas condições de vida. As próprias definições léxicas das palavras “vulnerabilidade” e “resistência” demonstram uma compreensão estreita dos conceitos, o primeiro sendo definido como aquilo que é frágil, pode ser ferido e com tendência a quebrar e o segundo como algo que reage contra a ação de outro corpo e suporta a fadiga, fome e esforço. A minha intenção é expandir estes conceitos com um novo vocabulário visual.