Escritos no Galpão397 – terceiro texto

Escritos no Galpão397 são textos produzidos pelos residentes de literatura convidados a observar e interagir com os residentes do programa Temos Vagas! que desenvolvem seus trabalhos artísticos no Ateliê397.

Abaixo, colocamos o segundo texto escrito por Gabriel Paulino Fracasso, aluno do curso Escrita de invenção: oficina de criação literária.


Quando resolvi procurar a arte

Gabriel Paulino Fracasso

Há corpos, braços. A face rubra mimetiza a experiência de buscar uma silhueta. Distingo as saliências, investigo. Costuro as cavidades como às covas. Explodo. O impacto da costa respinga, escorre a vermelhidão debaixo dos pés. É um mar. É a síncope. A busca da figura, da narrativa. O passado se incorporando feito parasita à narrativa que aqui, logo aqui se insinua. Uma nova mitologia ocupa a rua: a procissão de bichos desesperados, sem teto, sem iminência. Enquanto o chão se interrompe e desenha precipícios o tempo se multiplica em possibilidades de decifração. A memória, a memória. A tinta. Que se esquiva, que dilui, e inesperadamente compõe. Que inadvertidamente adverte. Retorna. Como círculo mágico que contém deduções. Tateio a tela como à poesia, e no centro me posiciono. Vem a vertigem e o barato, a fumaça escapa por fim, os pulmões são deficitários. Escorre, transpiro, espalho a gosma vermelha que inviabiliza as bochechas. Deus do céu, esse veludo, esse sonho. Que escapa feito o pano, que extingue dúvidas e promove desacertos, que delira sobre a grama, sobre os tijolos, sobre as inadequações. Fundo, fundo na infância o tema é livre. A areia cola sobre os papéis, é áspera, estimula. A argila é fálica, esvoaçante, acumula. O tato, o tato, o grito. Desespero. Deus do céu, onde está a tranquilidade enquanto me despeço e testo as asas que não podem afirmar que não tenho. Quase chego, o chão, o fim. Estou tão próximo. O homem parou, é um totem. É um estrupício. Estoura conforme a seiva rubra se cola ao chão cálido onde ele se despede. Não tem asas o homem, e homem já não é. Acabou enquanto despencava. Ele crava os joelhos, canta a agonia, inaugura o horizonte que não existe com a destreza dos que já tiveram vez. É uma fábula o homem, e homem já não é. Em suas asas uma lâmina adentrou, trouxe paz, esculpiu vísceras. Morreu o homem feito um verso, feito estátua, narrativa. Resta um resto, um resto com cheiro, com dimensões, um resto que escapuliu, e que a partir de agora delimita as fronteiras entre o daqui a pouco e o que já se foi. A palavra quadro tem pouco valor, atenua, nada diz o vermelho do pintor. Nada dizem as bandeirinhas da infância. Brotou uma década, alteraram-se os olhos e o cérebro. O vento, a navalha, os ramos de arruda que a avó ensinou a deixar debaixo do travesseiro. A nova ditadura que a palavra amplifica. É o ar o homem, não existe, esvoaça ao passo do desaparecimento das células, conforme se ocupam de excremento as cavidades. Fecundou uma rachadura o homem, poliu um vão, esculpiu um desfiladeiro. Inaugurou-se no fim triste que também é princípio, que também atina desprendimentos. Vida, que vida? Arte? O que é isso? Se a morte adorna as calçadas e não se percebe, se o homem se instala nas vias feito caçamba enquanto morre, e não precisa saltar, não precisa das asas, não precisa de um santo ou de uma lápide, se encena a morte conforme caminha e a vista permanentemente vendada não assimila a altura. E a dor enviesada é uma. É só uma. Nasce no baço, vai ao pescoço. Do braço se derrama ao corpo e das veias escapa feito um caule. Para enfim sedimentar a pele fria, sem carne.

Com os punhos cruzados, encerrados, circundados de velas, com os restos de pulmão queimando. A queda, a queda, a queda e o estrondo, os olhos que de olhos nada têm, abortados pela gravitação perpétua. Eleitos como símbolos primeiros de um fim. Arte? Que arte? Se não há instalação mais bela que o féretro elegante que vinca a extensão da cozinha, se não há cor mais bela que a da poeira que sobe das cidades interioranas, se a vertigem de olhar para baixo e querer voar é a elaboração de um projeto, é a performance ao gargarejo último da vida. E não há tinta mais bela que o vermelho que percorre entranhas. O vermelho que molha as bochechas e umedece o desejo, que doa à tela o estremecimento. E volta à veia para não exagerar.
Na busca da história encontro indícios do irretornável. Estou atônito e deliro. Procurar a linguagem é o mesmo que investigar totens. Cada ruga é um detalhe irrepreensível do que ansiamos um dia talvez delinear. Sim, o passado começa e dilui talvez no mesmo instante, e na sugestão do que ele mesmo deseja esconder, revela. Cola, sobrepõe, profana. Instaura na moldura dos minutos suas pulsões tropicais. A tela, feito entidade, procura adornos, enfeita-se de dor e interrogação, e então sucumbe. Arte? Que arte? Se o sol é inaceitável, se a sede é tamanha, se a carência é real e os odores se esparramam pela massa infinda das sensações. Esculpir vênus é talvez o mesmo que voltar ao passado.
O pulso antecede a narrativa, e então rompe. Para retomá-lo é necessária uma boa agulha, um bom artesão, alguém que não se aflija com a dispensa dos membros a princípio imprescindíveis, que não se estafe com a agonia que contra a vida depõe. O homem nunca soube medir com precisão seus pulmões. Caminha e ofega, desobedece. Graus suficientes incidem e talham incêndios invisíveis.

Elaboram mundos pouco frequentes. A lâmina está ao alcance da alma, está ao alcance da alma, está à altura da incompletude. O homem desiste, deita como deita também o vento, perde aos poucos suas fronteiras. A erupção dos dias. Deus do céu. Que tempo é esse que já não sabe contar sua história, que desconhece a performance da sanidade, que tempo é esse que se flagela no andamento indômito das coisas queimadas. Que tempo é esse que já não sabe que tem o mesmo nome daquele outro. Finado tempo, tempo colorido, tempo inviabilizado. Cujo nome é Precipício.


 

Gabriel Paulino Fracasso nasceu na cidade de São Paulo no ano 2000. É são-paulino e estuda Letras na FFLCH-USP. Anda, no momento, com certos desejos de literatura.