Escritos no Galpão397 | sexto texto

Exercícios ecfrásticos a partir da visita às obras em processo dos artistas em residência no Ateliê397.

Paul Setúbal

o chapéu do motorista
o boné do boia-fria
o quepe do soldado

eles cobrem a cabeça do sol e do vento
dos maus pensamentos

eles distinguem cada um –

o motorista

do boia-fria

do soldado

– de todos os outros

os que andam com as cabeças descobertas
como se fossem homens

sem regimentos nem seguranças
sem poderes de autoridade
sem símbolos de dominação

sem chapéus nem quepes sem bonés

os homens sem cabeças

 

Ana Matheus Abbade

beba-me ou não
sem ternura

beba o fogo solvente

veneno efêmero
do éter inflamável

beba o esmalte denso

gim tônica
água viva

*
se a noite de ontem
ainda é o dia de hoje

onde fico na linha do tempo?

*

três noites três dias
eu me dissolvo nas nuances do roxo

luz neon
acetona lilás
violeta de genciana

Julia Angulo

Delineiam-se insetos, plantas, miríades
de jardins, ciprestes, paisagens longínquas
com linhas verticais, horizontais, oblíquas
em tapetes persas vindos de tribos nômades

Entre palavras, gestos, lapsos obscuros
as cenas do inconsciente descortinam-se
e memórias e sensações destinam-se
a figurar imagens nos muros duros

de fios delicados e estampas geométricas,
matérias oníricas, perecíveis, simétricas
em telas de lã, seda, algodão, tintas coloridas

da casa que guarda um divã vazio de feridas
metafóricas e concretas, tecido de veludo, abrigo
no tempo encapsulado, desenho de tapete antigo.

Monique Huerta

a coroa de cristo
caule duro
talo de seiva espessa
haste de espinhos

pungentes
pontudos
cortantes

simulacro de parafina
silicone ou resina

a coroa de cristo
não é isenta de dureza
nem de violência

a coroa de cristo fere

os dedos
a cabeça
os olhos


Luciana Den Julio nasceu em 1978 e vive em São Paulo.