Escritos no Galpão397 – quarto texto

Escritos no Galpão397 são textos produzidos pelos residentes de literatura convidados a observar e interagir com os residentes do programa Temos Vagas! que desenvolvem seus trabalhos artísticos no Ateliê397.

Abaixo, colocamos o segundo texto escrito por Gabriel Paulino Fracasso, aluno do curso Escrita de invenção: oficina de criação literária.


A encenação

Gabriel Paulino Fracasso

Menino pega no vento, desenha um princípio, estranha, vê no corpo dissimulado no centro do espaço a não-resposta, dissolve, torce a boca, prega um estranhamento, tem no cérebro pulsões viris de doçura, desobedece. Acata a sugestão da alma e ignora, todos os espaços têm corpos estranhos no centro. Interrompe, lembra do nome, queima o próprio estômago, estar desperto é intragável. Une entre as quinas de um tablado os feixes indistinguíveis como veias fora dos braços. Vai ao chão à procura de caminhos, repousa, insinua um manequim, prende nas paredes um quadro e pouquíssimas palavras, não é possível ler. Quieto, investiga o olho, é uma menina. São dois. Esquece o vermelho, enxerga cores outras, quer a mistura, o lambuzo, a meleca, é macambúzia. Volta, estoura objetos uns contra os outros, é arquiteta de estrondos, não altera a feição. Não é para alterar a feição. Deixe que pensem, que achem, a feição está dentro, é um texto, revela, corrobora, condescende, poetiza. De novo menino, deita, pega mais uma vez no vento, aos poucos aprende como apanhá-lo com um tanto mais de destreza. Tenta fugir o vento, toma um safanão na orelha, não interrompa, vento, é feio. Não tussa na mesa, não pigarreie em vão. Volta, menina, amou muitos animais, deu ao conjunto o nome de canção, leu em voz alta os desamores, menina, não costuma distribuir safanões, não costuma, não costuma alongar os monólogos, não costuma ser tão menina assim. Pega no vento também, é diferente, o furacão é brusco e tem cólera, não dá pra pegar o furacão, é ininteligível. Cheira as possibilidades, empilha livros na quina, espalha organismos no galpão e diz me digam, revelem, apareçam, inventem um orgasmo, contem uma história que esses ouvidinhos aqui nunca estiveram tão abertos, já posso até pegar no vento. Enxagua os polegares no tanque, passa um carro e leva o silêncio, não deixa atrás nem uma pamonha sequer. Pinta um quadro com as cinzas, volta, é um menino. Pega no vento porque sempre deixaram que ele pegasse no vento, o vento é como que dele, do menino. Quente como a água não é. Vem a câmera, traça um panorama, percorre o teto, teme a altura, frio na barriga, uma aflição assim um pouco louca, dá vontade de ir embora, de conhecer o depois. Vê o corpo estranho no meio do espaço, já não é mais um, ponto e vírgula para organizar os pensamentos, para não se perder no desespero. Mistura os materiais da mente, adquire uma massa amorfa, escapa em orifícios e traz a música. Brega, um pouco, meio anos oitenta. Gole de água, o relógio da rua marca muitíssimos graus, muitíssimos graus. Passa o carro de novo, mas não traz o silêncio de volta. Filho da puta deixou o silêncio escapar, próxima vez vou dar-lhe logo um safanão na orelha, um daqueles que deixam um zumbido horrível. Agora menina, por enquanto ninguém se importou que eu pegue no vento, acho que ninguém viu na verdade, se vissem não teriam me deixado pegar repetidamente no vento já que é um privilégio do menino e o menino tem cólera. Faço a lista de imprescindibilidades. Escolher a cor do vento é uma delas, digo, nem sei se vão acatar a minha escolha de cor, mas parece assim esse ventão tão bonitão que tem meio que uma cara de vermelho, meio mercúrio cromo que nem passavam nos joelhos nos anos oitenta, tanta música que estragaram nesses anos oitenta. Sou menino, tenho cólera, tenho ideias, pego no vento porque me deixam pegar no vento, sou assertivo, soo o sovaco, ninguém ousa reclamar desse cheiro insuportável, faço barulho, bato objetos uns contra os outros, pego no vento, deixem-me em paz, se não me deixarem pegar no vento vou dar um tapão de cólera no meio dessa sua orelhona aí, seu filho da puta, levou o silêncio embora. Prego na madeira, pego no vento, enferrujo o vento, estrago o vento, não tem problema, já peguei bastante no vento, já pequei bastante no vento, a menina que se vire com esse vento enferrujadíssimo, avermelhado, bem rubro, como a orelha do filho da puta vai ficar quando eu der um safanão bem no meio da orelha. O filho da puta levou o silêncio. Sou menina, o vento é vermelho, apago o incêndio que já até vai ficando meio azul assim assustador. No meio do espaço tem um corpo estranho, vários loucos fazendo arte, inventando coisas, parece até que nunca pegaram no vento, que nunca sentiram esse vermelhão aqui, esse vento lindo pra caralho. Tomo um banho de mangueira, mas não com o vento, a menina pegou o vento, já nem sei de que cor é o vento, nunca precisei colorir nada, o vento era todo o meu privilégio, nem cor tinha. Agora o vento pode ser da menina, tem até cor, que eu mal enxergo, e o filho da puta no carro levou o silêncio. Tem um corpo estranho no meio do espaço, a câmera lá em cima elucubrando quedas, sugerindo literaturas. Sou menina, tem cor o vento sim, fiquei pegando no vento até agora, atrevimento, ninguém disse nada dei cor ao vento, vê se não enche o saco, vai lá buscar o silêncio que nem deve estar tão longe assim, aproveita e elabora a vermelhidão, apreende a textura da morte, fala de uma vez por todas que não vê cor, não vê veludo, não tem tato. Sou menina, pego no vento, sou menino, filho da puta do caralho levou o silêncio e vou ter que ir busca-lo, não tenho tempo, não tenho o vento transparente, sou menina, acabou a canção, a próxima é mais agradável, tem cadência, tem calidez, meio anos sessenta, o vento agora é vermelho. Ponto e vírgula para organizar o pensamento, para organizar o vento, nem vale a pena organizar o vento, já deram cor ao vento, agora mexo meus pés, cravo os calcanhares, aqueço os dedinhos e vou buscar o vento que esse filho da puta levou, volta aqui, não!, ele levou o silêncio. Vê o corpo estranho no meio do espaço, nada faz, só faz arte, elabora o mundo, se alguém devia colorir o vento era ele, o vento é dele é do menino. Atravessa, desenha uma estrada entre os olhos, retorna, nada antecede, não há infância, ainda é menino. Escuta, o menino escuta, a menina escuta, dizem coisas sobre pegar no vento, desconfiam da vermelhidão do vento, desconfiam ser impossível ver o vento, nem vento sabem o que é. Menina pega no vento, não sabe o que é, não tem ideia, pousa o caderno no colo, pega o cartucho, risca, não sai palavra, sai parágrafo, sai solilóquio. Vento, que é isso. Esquecemos. O tema livre, menina, o vento é do menino, antes da menina pegar no vento nenhuma menina pegava no vento, trata o fel com esmero, deseja, quer mas não sabe o quê, indaga o porquê, não desacelera, não para, aos poucos buscamos resposta, aos montes perfuramos os lóbulos, e do fígado retiramos o caldo. Menino não tem vento, não tem fígado, carcomeu. O podre trouxe compostagem, já não tem silêncio. Filho da puta levou o silêncio, vai buscar caralho, que te meto a porrada, que te estouro safanões na fuça, que te arrebento a nuca, filho da puta, traz a porra do silêncio aqui que o vento é meu, que fui criado entre assassinatos, que já matei muitos homens e não te pouparei agonias. Filho da puta do caralho, traz o vento, não, o silêncio, o vento ou o silêncio, e leva embora a vermelhidão. Vento pega no menino, arremessa entre a palha e o tijolo e depois acalma, foi um impulso, espere!, não sou assim tão violento não. Fingimento. Sou só o vento.
São Paulo, 17h04, setembro


Gabriel Paulino Fracasso nasceu na cidade de São Paulo no ano 2000. É são-paulino e estuda Letras na FFLCH-USP. Anda, no momento, com certos desejos de literatura.