Escritos no Galpão 397 – segundo texto

Escritos no Galpão397 são textos produzidos pelos residentes de literatura convidados a observar e interagir com os residentes do programa Temos Vagas! que desenvolvem seus trabalhos artísticos no Ateliê397.

Abaixo, colocamos o segundo texto escrito por Gabriel Paulino Fracasso, aluno do curso Escrita de invenção: oficina de criação literária.


Os olhos talvez

Gabriel Paulino Fracasso
Bandeirinhas de um Volpi quase antepassado. A tinta lamacenta adquire textura pedregosa sobre a madeira infantil. Derrama-se em fluidos vermelhos, parece tentar assemelhar-se ao sangue.
A barba roxa feito os tons de azul-mistério foi agora ressaltada pelo garçom que em um franco monólogo revelou ter servido um café para Raul Seixas. Hoje já não há frascos melequentos como quinze anos atrás. Não há mais o ateliê cuja fachada era interceptada por uma amoreira de frutos poeirentos. Terrosos. Um círculo, feito buraco-negro, induz a nova ditadura que a palavra trabalho amplifica. Ali atrás não se sabe o que há senão ruídos, ruídos, ruídos. Ruídos. Separados pela mesma madeira infantil que eu nunca soube desvendar.
A furadeira é, quem sabe, a mesma que nos desperta na chuvosa zona oeste da metrópole. Os panos são distendidos uniformemente, diferenciando-se dos maus lençóis. As lâmpadas fraquejam e nos levam de volta ao caos. Duvidamos tanto dos peixes quanto dos aquários. Os temporais voltam a se situar no presente.
Retorno. Talvez quinze anos, mais uma vez. Uma escada delineia os andares, delimita nortes, incendeia o sul. Aqui embaixo, ontem mesmo temi precocemente o esquecimento. Como que morto e taciturno fui a criança momentaneamente deixada, a criança que descortinou indolentes fascínios. Duas ou três horas de demorada aflição, e a busca realizada é cabisbaixa, tem braços de pai, mas é cabisbaixa, tem a carteira vazia. Não dá nem para uma curta viagem de táxi.
Agora é sábado e já não há descanso. Os devaneios das crianças estão expostos no andar de baixo. Enfeitam as paredes feito borrões, feito sensíveis sujeiras. O mesmo sangue fundo se borra pelas cartolinas, se pontilha da nossa ingenuidade, e os pais agora com as carteiras minimamente preenchidas estão orgulhosos.
Nos quinze anos depois, a demora dos olhos se nota de longe. Estão vidrados, estalam sob influência química, perdem paulatinamente a candura. A exaustão se deve ao pulso das furadeiras que lhes despertaram de maneira indigesta. São olhos que fingem que estão, que fingem que funcionam, que fingem que envelhecem. São olhos que emocionam. São olhos que deixam de pertencer às épocas, que tardam em responder aos gritos. Que adoecem, sangram, lacrimejam. E, enfim, são olhos. Os olhos talvez de um menino.


Gabriel Paulino Fracasso nasceu na cidade de São Paulo no ano 2000. É são-paulino e estuda Letras na FFLCH-USP. Anda, no momento, com certos desejos de literatura.