As distâncias entre nós

Em fevereiro, o Ateliê397 recebia o novo grupo de artistas que iniciaram a segunda edição do programa de residência Temos Vagas. Carlos Medina, Erica Magalhães,Gabriel Pessoto, Gabriela Monteiro, Gustavo Torres, Heloisa Hariadne, Isabella Lescure, Luiza Branco, Mariana Rodrigues, Martina Krapp, Nicole Kouts e Renata Egreja ocuparam o galpão do Ateliê397 com vontades, desejos e expectativas.

Mas, com pouco mais de um mês dos artistas instalados no espaço, fomos abruptamente tomados pela pandemia mundial causada pelo COVID-19, que nos colocou em um estado de suspensão, levando-nos a encarar um grande desafio: optar por encerrar ou adiar o programa de residência naquele momento, ou migrá-lo para o ambiente digital. Sem uma resposta definitiva para os meses que sucederia tal decisão, optamos por nos reorganizar de forma online.  

Tomada essa primeira decisão, os desafios começavam a se desdobrar em como manter a prática do encontro ativa para além das distâncias que o período havia nos imposto. Atravessados por tal questão, vimos também o cenário artístico voltando o olhar a si, de forma a criticar sua própria estrutura de funcionamento, jogando luz em práticas que há muito já se apresentavam insustentáveis – e incluo aqui a própria lógica de precarização de funcionamento que o Ateliê397 está inserido, e que sofreu abalos logo nas primeiras semanas da pandemia.

Identificar esses pontos sensíveis foram de extrema importância para que pudéssemos readaptar o programa da residência para uma nova realidade, não só prática, mas discursiva, de forma a criticar e tensionar, mantendo-se condizente com o período que estávamos atravessando, e que já apontavam mudanças significativas na forma que os artistas residentes passaram a pensar suas produções artísticas.

Dessa forma, montamos dois ciclos de debates, os quais nos levaram a discutir possíveis caminhos para vislumbrar a circulação da arte para além dos caminhos estabelecidos, e também na tentativa de fugir das novas propostas que rapidamente tomaram o campo da arte a fim de circular o pensamento e produção artística diante do fechamento dos museus, galerias e espaços autônomos. Guiados por perguntas como “qual a potência da troca em uma residência artística, no período em que arte e artistas não podem estar em embate?”, “como produzir em períodos de crise?”, ou ainda “é função da arte dar uma resposta imediata para o momento que estamos vivendo, uma vez que a compreensão dos fatos é posterior a eles?”, convidamos os curadores Marília Loureiro e Germano Dushá e a artista Flora Leite para criar uma interlocução com a partir de suas produções, vivências e construções críticas dentro do campo da arte. 

No segundo ciclo, foram os artistas Jaime Lauriano e Marcelo Amorim que trouxeram panoramas importantes para pensarmos juntos o papel do artista e todas questões implicadas diretamente nessa escolha e desenvolvimento profissional. Se, no primeiro momento discutimos mais abertamente sobre a própria dinâmica do sistema e como estabelecer novos parâmetros de uma existência saudável nesse local, no segundo momento descortinamos temas que ainda são velados, para que juntos pudessemos traçar novas possibilidades mais suntentáveis para um futuro ainda incerto.  

Segundo Dushá, “tudo está sempre em embate, o que pode mudar são as circunstâncias – seja de uma perspectiva biológica ou cultural/socioplítica. Nos cabe, portanto, reconhecer o que está em jogo, que potências e limites, e quais são as nossas disposições e aberturas diante desses processos de transformação, sobretudo quando assumem graus extremos. Criar estratégias de troca em um momento como este, de isolamento, incerteza e alto risco vital – e ainda mais agudo por conta dos absurdos no campo da organização política -, é fundamental para elaborarmos em conjunto os questionamentos necessários e as metamorfoses incontronáveis”. 

Assim, após cinco meses de encontros e trocas ativas, encerramos a segunda edição da residência artística Temos Vagas! Com uma perspectiva de futuro, por mais incerto que ele ainda se mostre. E digo futuro em uma perspectiva de continuidade. Embora alguns planos tenham sido frustrados, optamos por estar aqui, em constante questionamento de quais outros passos precisamos trilhar para continuar produzindo arte e que ela siga em busca do encontro com o outro.

Carollina Lauriano

O download do arquivo sobre o processo e finalização da residência está disponível em: https://bit.ly/ResTemosVagas2